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Segunda-feira, Fevereiro 27, 2006

Lucia

Conhecia a caixinha de recordações da sua mãe, lilás e com flores de tule.
Já havia lido todas as cartas, mexido na agendinha de telefones, se impressionado com todas as confissões no velho diário.
Mas e aquela outra quadriculada, no fundo do armário? Ela nunca tinha visto, definitivamente. Era bem pequena, com chaves para abrir um cadeado.
Abriu. Lá dentro, muitos papéis amassados e presos com elástico vermelho. Fotografias.
Principiou a ler e descobriu que eram bilhetes.
A letra era pequena. Conhecendo a grafia de sua mãe, sabia que não era ela a autora. Quem escreveu parecia estar nervoso, não havia firmeza. Tanto na escrita como nas palavras.
A maioria dos bilhetes dirigia-se à sua mãe, talvez por isso a caixinha estivesse em poder da mesma. Mas outros falavam no nome Gabriel. E por alguma razão, nunca foram entregues a ele.
Acabou de ler os bilhetes e voltou-se para as fotografias. Tinham estampa de saudade, e sua mãe aparecia em muitas delas, ao lado de uma moça com olhos cor de violeta. Olhos infinitamente tristes.
Descobriu, com surpresa, um fundo falso na caixa. Dentro dele, um diário cor-de-rosa e branco, quadriculado com fitas de cetim na capa.
Em uma hora, leu todas as páginas. Gabriel era o nome do rapaz que a moça de olhos tristes amava. Lucia era seu nome.
Ela e Lucia faziam aniversário no mesmo dia, gostavam do Paul McCartney e achavam Hesse sobrenatural.
Lucia havia casado. Não com Gabriel, mas com João. Tido três filhos. E nunca dado mais nenhum sorriso sincero desde sete de agosto de um ano que ela preferia esquecer, segundo as palavras de seu diário.
Já havia morrido. Ela se lembra vagamente de sua mãe chorando após o velório de Lucia, à dez anos atrás.
Talvez Lucia tivesse querido mesmo morrer.
Fechou o diário, pôs tudo de volta na caixa e colocou-a de volta no fundo do armário.
Tinha lido demais sobre a sua vida.

[sober-drugstore]


Carmen "baviou" às: 7:51 PM
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Domingo, Fevereiro 12, 2006

II.

Nossos olhos se desencontraram
Desviaram-se para fitar
A felicidade que andava pela rua
E que fomos incapazes de alcançar.

Será que o samba não tocou?
Ou em nossa fugaz euforia
não pudemos ouvir seu ressoar?

Os passos desastrados, trôpegos
Cheios de amargura e pesar
Nos fizeram temer continuar
E desistimos das luzes, da dança:
Nosso descompasso conseguiu nos parar.

[take, take, take-white stripes]


Carmen "baviou" às: 7:05 PM
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